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7 de janeiro de 2026

Quatro garotas em quatro filmes

Como bem diz a minha descrição no letterboxd, "só gosto de ver uns negocinho, não quero entender nada não". Não tenho muitos critérios além de evitar filmes americanos.

* * *

A Dream Longer Than the Night (Niki de Saint Phalle, 1976, França) | Não lembro onde vi o nome dessa diretora mas lembro de quando fui atrás só ter encontrado trechos no Youtube mas nada em nenhum outro lugar. Abri o Mubi no primeiro dia do ano e dei de cara com esse filme aí vi. É meio De Repente 30, é meio Alice no país das maravilhas, é várias coisas acontecendo tudo e tanto. É um clipe da banda experimental Einstürzende Neubauten antes da banda experimental existir. É piroca explodindo. Várias.


Alicia en el país de las maravillas (Eduardo Plá, 1976, Argentina) | Logo em seguida vi esse Alice no país das maravilhas, dessa vez infantil como geralmente é. Promissor no início mas depois descambou e só pareceu uma aula experimental de teatro que rendeu um certificado de participação e um VHS com o filme da turma.

Donkey Skin (Jacques Demy, 1970, França) | Ainda nos contos de fadas, vi esse do marido da Agnès Varda. Anos atrás assisti Les Parapluies de Cherbourg, ou Barbie para CiNéFiLoS, que achei obviamente belo mas com vontade de deixar no mudo. Esse do asno não. É perfeito. É LINDO. O FIGURINO. AS CORES. GLITTER POR TUDO. As músicas funcionam e não enchem o saco. Jeane Dielmann tá lindíssima.

Attenberg (Athina Rachel Tsangari, 2010, Grécia) | Garota estranha (que transa estranho com cara estranho e que tem amiga estranha) tem relação normal com pai normal que vai morrer. Estranho normal.

15 de novembro de 2025

Quarta, quinta, sexta, sábado

Quarta-feira, 12 de novembro. Farei legumes salteados. Fiz legumes salteados. Escrevo sobre comida porque é hora da janta. Estou aos poucos voltando a assistir filmes (séries desisti por ora). Há nos favoritos do navegador uma página do Mubi de CURTAS e outra SAINDO EM BREVE. Curtas porque é pá-pum e a segunda porque acho meio palha o sistema de exibição do site, às vezes fico sabendo de títulos apenas porque anunciou-se a saída. Mas aí não é muito diferente de qualquer outro streaming. Falando nisso, assinei o Filmicca de supetão porque apareceu promoção e eu não resisto, sou facinha mesmo (não sou nada). Gostei de cara porque não tem sistema de notas nem review, é título, capa, ano e duração. Nem diretores são destaque. Aprecio demais saber de menos.

Quinta-feira, 13 de novembro. Cheguei do trabalho, tomei chimarrão, comi pipoca. Fui na farmácia da esquina, como toda esquina de qualquer lugar, e comprei paracetamol, antialérgico, antisséptico. Não me cortei nem estou espirrando mas eventualmente essas coisas acontecem então estou preparada. Existe a dor de cabeça, espero que logo passe.

Lavar roupas é para ser tarefa simples. Recolho o cesto de roupas sujas do banheiro e também todas que espalhei pela sala, cozinha, quarto, abro o tambor frontal e jogo tudo lá. Sabão líquido e amaciante, modo rápido, secar 30 minutos. Por algum motivo os dias vão passando e as pilhas subindo e eu vejo tudo mas não me mexo. Tomei um paracetamol, liguei a máquina. Daqui 1h12 vai tocar a música.

Terminei de ler Frankenstein da Shelley. Achei muito bom etc e tal. Fiquei pensativa sobre a autora, uma novinha nepobaby culta e ricaça. Queria ser ela. Vi o filme homônimo de 1931. Fiz macarrão, desliguei as luzes da cozinha, acho que vou dar play nesse novo aí.

Sexta-feira, 14 de novembro. Desci a rua rumo à padaria que foi ficando mais chique ao longo dos anos. O dia foi todo quente mas tive que colocar um casaco para conter o vento que fica alegrinho quando cai o sol. No caminho me transportei para algum outro lugar, memória inventada, futuro, sei lá. Vi algumas casas com luzes de natal, observei janelas a dentro, senti vontade de comprar luzes de natal também. Ainda não quero pensar nas coisas que essa época sempre leva a pensar. Comprei salgadinhos fritos de festa, sextou, amanhã é feriado e não trabalho. Ontem vi 15 minutos de Frankenstein, o novo, e hoje pausei faltando 45. É filme demais, nem precisa de tanto.

Sábado, 15 de novembro. Acordei tarde, tomei banho e depois café da manhã na cama enquanto lia My year of rest and relaxation da Ottessa Moshfegh (por indicação). Almocei churrasco no asilo em que meu tio é voluntário e fui com meu pai até a restauradora encher o carro de estátuas de santos diversos que foram remendados e então devolvidos à igreja do lar de idosos. Sabadaço. Voltei, ar-condicionado ligado, dormi.

Eu como muito saudável durante a semana então resolvi me dar o luxo de comprar besteiras que prefiro não dizer para servir de janta. Anoiteceu, peguei a cadeira de praia, sentei debaixo do pé de pitaya (tem uma pombinha com ninho nele!!!) e tomei chimarrão. Os gatos ficaram na volta rolando na grama, principalmente o Hector. Quase me senti em paz aqui, sentimento estranho. Terminei de ver Frankenstein. Achei pau mole.

bolsa baguete com estampa de limão siciliano
foto de cima de gato laranja na grama

A bolsa eu fiz algum tempo atrás. É o mesmo tecido da necessaire feita de teste (e tenho usado muito). Desse retalho também saiu uma capa para a máquina de escrever. O vestido florido era da minha mãe. O tênis, por muita sorte, recebi do entregador cinco minutos antes de sair correndo para pegar o trem de saída de Toulouse rumo Marselha. Hector é lindo.

21 de outubro de 2025

Cozinhar, ler, dormir

Estou fazendo torta de frango, o recheio já estava congelado, aí é fácil. Vi um bolo de aveia com cenoura e maçã no youtube que vou tentar reproduzir. Tenho tudo em casa, mas não vai ser hoje, que logo logo desmaio e durmo. A energia é bem limitada à noite. Comprei um kindle verde e uma capa rosa e agora leio Mother night do Kurt Vonnegut. Vou ser sincera, só baixei (é pra isso que comprei um kindle) porque a nota era alta no goodreads (em 2016 essa foi minha rede social favorita e agora talvez volte a ser). 

Rede social favorita. Que coisa engraçada. Eu só quero sumir de todas. Espero que minhas bugigangas da shopee cheguem a tempo. Vai ter halloween. A assombração era real — aqui em específico quero ser enigmática. O queijo tava em promoção, eba.

Ano passado eu estava comprando queijos e vinhos nos carrefour da França. Lençol algodão 300 fios na Primark por 15 euros. Show sozinha, rolê em castelo. Sei lá. Outra vida.

Meu letterboxd tá vazio. Último visto foi o turco Time to love no mubi. Não sei se o tempo está para amar. Sei que vai ter sol durante toda a semana. Foi só escrever isso que enquanto jantava vi The goat, um mudo com Buster Keaton. Nunca tinha visto nada com ele mas já avistei fanbase do short king por aí. Matrioshka de sopa: postei sopa, a xis viu e fez sopa, eu li que fez sopa aí fiz sopa de novo, sem registros. Mas agora tá calor e sem tempo pra amar.

time to love

14 de setembro de 2025

O final de semana vem e logo vai

Meu fone de ouvido/headset é um JBL barato que já contabiliza vários verões. A pelezinha do acolchoado já descascou por inteira e agora tá só o bagaço abraçando minhas orelhas, fora isso tudo ótimo, bateria dura a perder de vista.

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Eu vi assombração.

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Sexta-feira à noite era comemoração de aniversário da minha colega de trabalho. Coisa simples, só de achar um canto para se escorar e beber algo. Coloquei um vestido de malha que fiz logo no início da pandemia (voltou a me servir bem, dei uma emagrecida). Curtíssimo, mas nem poderia ser diferente, o tecido era retalho de uma fábrica que fechou e não sobrou um fiapo extra para contar história. Fazia frio, usei uma gola alta por baixo do vestido, meia-calça preta. Também uma camisa verde escuro por cima disso e um blazer ganhado faz anos mas que até então nunca tinha usado. Nos pés um Adidas azul, na cabeça o cabelo preso no alto. Comi um pastel às 3h30 da manhã e no mesmo dia acordei às 6h30 para trabalhar.

Trabalhei. Meio-dia do sábado eu já estava casa, almocei e logo saí novamente, nem descansei. Vi Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles pela segunda vez esse ano, dessa vez no cinema. Lá em abril eu abri o site do Sesc Digital às 23h, desliguei as luzes e não pisquei até o último minuto dos 202 que possui. Fechei o notebook mas não parei de pensar por dias no que eu tinha acabado de assistir. Fiz paralelos pessoais demais para explanar aqui, nunca escrevi a respeito e metade deles já esqueci. No telão a experiência coletiva foi diferente. Talvez fosse o sono da noite mal dormida. As luzes de emergência guiando a saída nas laterais do prédio antigo, a luzinha de segurança debaixo dos degraus indicando o caminho, o celular da pessoa desgraçada na minha frente que insistia em olhar a hora (15h52, 17h24, 17h28). Daqui uns anos revejo.

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Música de IA deveria ser crime.

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Segunda vez só nesse ano que a película de vidro do meu celular quebra. Rachou bem em cima da câmera, tá ficando estranho. Já não é das melhores, ficou pior ainda. Preciso trocar, mas que saco.

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O almoço de domingo ficou por minha conta. Fiz um macarrão caprichado, coloquei a mesa bem bonita, servi suco de uva. Agora, já noite, fiz um monte de legumes salteados. Preciso comprar mais manteiga, tomates cereja, brócolis. Também coloquei post-its no espelho que me reflete agora no quarto "comprar calcinhas, meias", "comprar base, hidratante", "comprar cabides". Sugestões para evaporar dinheiro.

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Nunca tinha visto laranja que fosse vermelha assim.

14 de julho de 2025

Cabelo, filme, estante

Abri o bom e velho bloco de notas no computador e agora posso deixar as coisas em negrito, itálico, colocar links? Que moderno, querido, que tecnológico. Ao lado dessa aba tem mais 12 (apenas 12, dessa vez) que fazem companhia, coisas de meses atrás, coisas que já esqueci ou perdi o interesse ou propósito, mas como não quero revisitar vou deixando aí até chegar a hora de fechar. Uma hora chega.

Ontem cortei o cabelo. Sozinha, no espelho do banheiro. Dessa vez não com a tesoura Elgin da cozinha, tão velha quanto meu pai, mas com a de papel do meu atelier. Pesquisei "wolf cut" no youtube e imitei o que me parecia mais sensato. Dividi meu cabelo em duas partes, frente e costas, dois rabos-de-cavalo lá no topo, e cortei conforme instruído. Não há provas, mas gostei do resultado.

A pesquisa dessa vez foi só pra fazer charme, não que precise. Não que eu saiba de alguma coisa. A ideia sempre é só pegar a tesoura e cortar o que parece que precisa ser cortado, faço isso desde 2011 (quando tive coragem de cortar meu cabelo longo). Poucas vezes fui feliz em salão, cortam de menos ou demais, comentam defeitos que nem existem. A última cabeleireira que fui gostei bastante, até repeti, mas pela distância acabei imitando o corte em casa mesmo. Cabelo cresce, é só uns pelos na cabeça.

Ainda na editoria youtube, acabei de ver um filme. Noite de inverno em Gagra (Зимний вечер в Гаграх), de Karen Shakhnazarov. Uma espécie de musical soviético, uma mistureba que não se explica tão bem de sapateado, Egito, sintetizador, máquinas substituindo artistas. Achei mais ou menos, mais pra menos, mas feliz por ter visto algo. Fazia mais de mês que não atualizava meu letterboxd (e esse foi o centésimo filme do ano!).



Ah. Mais uma coisa, importantíssima. Comprei uma sapateira tosca baratérrima na shopee (nunca antes tinha me aventurado) e me diverti montando o quebra cabeça, fui na intuição e deu certo. É feia mas resolveu uma bagunça que não sabia onde por.


Igual o cabelo, vou deixar o resultado na imaginação.

25 de abril de 2025

Sátántangó



Li o livro (László Krasznahorkai, 1985) aí vi o filme (Béla Tarr, 1994). Baita. Belas imagens. Não tenho nada brilhante para comentar, tem o contexto político aí acontecendo, provavelmente algumas questões profundas, filosofia, essas coisas cheias de teorias e conceitos e explicações e perguntas e nós na cabeça. Não tenho literatura nenhuma de nada disso e sinceramente não é o que me move.



Acho que o livro me pegou mais, texto denso que me obrigou a forçar o cérebro, ainda mais depois de certo tempo sem ter o foco necessário para prestar atenção. Serviu como distração enquanto eu passava por um período meio triste, então numa imagem tag yourself eu seria o Doutor, bêbado, observando e escrevendo tudo sem ser parte. Yay. Pelo menos naquele momento. Não tenho culhões pra ser Irimiás, nem as divinas tetas da senhora Schmidt, nem religiosa como a Halics. É Doutor, mesmo. O Futaki é tristola mas calma lá, há limites. Ele é só patético. Falando em senhora Schmidt e senhora Halics, achei, no livro isso, que tinha clima? Uma tensão. Interesse, vá lá. Vai ver era loucura minha.








O filme é essa coisa monstruosa de sete horas e dezenove minutos. Vi durante um dia inteiro, arrastando o notebook pela casa enquanto fazia as atividades domésticas feito Jeanne Dielman (esse ainda estou digerindo). Cortei temperos, fiz farinha de rosca com uns pães velhos pra não jogar fora, o almoço, a janta, lavei a louça, outra louça, estendi roupa, guardei a roupa. E o filme lá, acontecendo. Alguns momentos sentei em frente e fiquei paradinha. Umas duas horas do total. Sei lá. Perdi a noção do tempo igual o diretor.

Irimiás. Hot rodent man.

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Ouvindo sem parar: Hej, Aloszka - Metro

29 de março de 2025

Cinemateca Capitólio: 10 anos

Na última quinta-feira peguei o trem, subi a Borges, passei debaixo do viaduto em eterna reforma e entrei no cinema. Vi A mulher de todos do Rogério Sganzerla. Não moro mais ao lado então esse trajeto tem sido um pouco mais custoso mas fiz questão de estar presente na comemoração dos dez anos da cinemateca. Obviamente o prédio data de muito antes e há toda uma história que não cabe aqui mas o que importa é que dez anos atrás esse espaço reabriu e eu também estava lá.

alphaville, jean luc godard. ingresso da reabertura da cinemateca capitólio colado em um diário

Não lembro exatamente como fui. Tinha 21 anos, não frequentava cinema que não fosse de shopping e meu ânimo para assistir coisas diferentes mal tinha começado e já estava em declínio. O filme exibido na reabertura foi Alphaville de Jean-Luc Godard, um nome familiar apenas pelas menções que minha professora fazia, tema da tese dela. Mais tarde vi outros, mas me encantei pela Anna Karina primeiro naquele telão. 

Essa é uma informação meio perdida que encontrei num diário enquanto arrumava a estante. Nunca tive regularidade em anotação alguma mas naquele ano, motivada pela ideia fixa em encadernação e todo universo de bookbinding, imprimi todo o miolo de uma agenda, costurei os booklets e bordei a lombada. Uma graça. Registrei o cotidiano por alguns meses e depois parei, naquela época minha letra ainda era legível e meus pensamentos sabiam deslizar até a caneta. Na data de 28 de março de 2015 eu colei os ingressos e terminei o relato dizendo "quero mais dias assim". 

Não teve mais dias assim. Ensaiei diversas voltas mas somente retornei em 2022 depois de uma grande mudança na vida. De repente me vi na urgência de pegar o trem, subir a Borges e a escadaria, entrar no cinema. Vi Capricious Summer, título que fazia parte da mostra de filmes tchecos, um universo que eu nunca tinha ouvido falar, e anotei meu primeiro filme no letterboxd

sala de cinema capitólio

Depois desse dia, ir ao Capitólio virou rotina. De preferência na última fileira, lá em cima, em um dos dois bancos centrais, visão perfeita de tudo quase em anonimato, sozinha. Ir para esticar as pernas após o trabalho, pescar os olhos quando as coisas acontecem muito lentamente na tela, chorar porque é preciso independente da cena ser triste, ir porque não há nada melhor para fazer ou antes da festa, do bar, encontrar amigos. Flertar, por que não. Ir porque é perto, porque é de graça, porque o título é engraçado, porque ouvi falar, desconheço, porque é estranho. Ir porque é confortável ver os mesmos rostos que também frequentam feito personagem. 

Enfim. Gosto de ver filme e eu gosto do lugar.

5 de março de 2025

Take care of your scarf, Tatjana

Take Care of Your Scarf, Tatjana 1994 Pidä huivista kiinni, Tatjana Directed by Aki Kaurismäki
Take Care of Your Scarf, Tatjana 1994 Pidä huivista kiinni, Tatjana Directed by Aki Kaurismäki

O preto e branco lindíssimo não dá essa informação mas eu sei que essa máquina de costura Husqvarna é verde, já vi em algum lugar. Café no trabalho, café no carro, café no bar, café no restaurante, café até tremelicar. Jaquetas de couro, bandas de rock. Garotas descascando batata e depois dançando. Poderia ser um printscreen decente mas vai foto da TV mesmo. É o filme Take care of your scarf, Tatjana de Aki Kaurismäki. Vi no Mubi.